Recuperações judiciais no agronegócio crescem 66% em um ano e crise avança sobre pequenos produtores

O agronegócio brasileiro vive um momento de forte deterioração financeira. De acordo com o mais recente Monitor RGF-BizDoc, elaborado pelas consultorias RGF Associados e BizDoc, o número de produtores rurais em recuperação judicial atingiu 1.263 CNPJs ao final do primeiro semestre de 2026, representando crescimento de 66% em relação ao mesmo período de 2025 e de 21,4% em comparação com o encerramento do ano passado. Quando considerados também os segmentos de insumos, agroindústria e comercialização, o universo alcança 1.575 empresas, correspondendo a aproximadamente 20% de todas as recuperações judiciais existentes no país.

O levantamento demonstra que a crise deixou de atingir apenas grandes grupos econômicos e passou a alcançar, sobretudo, micro e pequenos produtores rurais. Atualmente, mais da metade dos produtores em recuperação judicial pertence à categoria de microempresas, evidenciando a expansão do instituto após as alterações promovidas pela Lei nº 14.112/2020 e a consolidação da jurisprudência favorável ao acesso de produtores rurais ao regime recuperacional.

Entre as atividades mais afetadas, a cadeia da soja concentra quase metade dos casos, reflexo de sucessivas safras comercializadas com margens reduzidas e preços insuficientes para amortização das dívidas acumuladas. O levantamento também registra crescimento expressivo dos pedidos de recuperação judicial nas cadeias do milho, arroz, café, pecuária leiteira e pecuária de corte, demonstrando que a deterioração financeira alcança praticamente todo o setor agropecuário.

Os impactos já se estendem para além das propriedades rurais. Revendas de fertilizantes e defensivos, fabricantes de rações, concessionárias de máquinas agrícolas, frigoríficos, laticínios e empresas de comercialização de grãos também passaram a registrar aumento significativo de recuperações judiciais, indicando que a inadimplência dos produtores vem sendo transmitida gradualmente aos demais elos da cadeia produtiva.

O estudo aponta que esse cenário decorre da combinação de diversos fatores econômicos, entre eles a queda dos preços de commodities agrícolas, juros elevados, aumento dos custos de produção, restrição do crédito rural, oscilações cambiais e eventos climáticos adversos. Soma-se a esse contexto a expectativa de novos aumentos nos custos de fertilizantes em razão das tensões geopolíticas internacionais, o que pode agravar ainda mais a situação financeira do setor.

Outro ponto de atenção é a entrada em vigor do Provimento nº 216 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que passou a exigir, para determinados pedidos formulados por produtores rurais pessoas físicas, a comprovação de pelo menos dois anos de escrituração contábil formal para inclusão de determinadas dívidas na recuperação judicial. A medida poderá influenciar o volume e o perfil dos futuros pedidos, a depender da interpretação adotada pelos tribunais.

Segundo a consultoria responsável pelo levantamento, a tendência é de que o número de recuperações judiciais continue crescendo ao longo do segundo semestre de 2026 e durante 2027, uma vez que os efeitos financeiros das últimas safras ainda não foram integralmente absorvidos e o ciclo de inadimplência continua se propagando por toda a cadeia do agronegócio. A expectativa reforça a importância da adoção de medidas preventivas de reestruturação financeira e de gestão do passivo antes que a situação evolua para quadros de insolvência mais severos.

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